17 de setembro de 1962: Uma data histórica da minha vida

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“As nossas vidas às vezes são feitas de memórias e de exaltações e de atos banais e de factos relevantes, como se gosta da vida, gosta-se do passado”

Faz 55 anos que bati o recorde da travessia de Gibraltar com a ajuda dos golfinhos.

Depois de vários dias de espera, em virtude dos levantes, muito frequentes no mês de setembro em Gibraltar, fiz várias tentativas de me lançar ao mar, mas os guias, conhecedores das correntes e dos ventos, diziam que o estado do tempo não era propício. Andei assim seis dias (eu era funcionário do Porto de Lisboa e os meus chefes não autorizaram a minha saída, só foi possível arranjar cinco folgas, como no fim-de-semana de-semana se perfaziam oito dias, no dia 17 de setembro fazia os seis dias) até que houvesse ventos e correntes. Caso contrário, regressava a Portugal sem me lançar à água, o que era uma grande bronca, pois no ano anterior tinha desistido mesmo junto à Costa de África, com uma dor no ombro.

17 setembro de 1962. Manhã soalheira, com menos vento, mas quente. As águas do oceano mantinham-se um pouco agitadas e o vento era mais moderado. As esperanças quanto ao êxito eram extensivas a todos aqueles que me acompanhavam: Mimoso Freitas (jornalista), Alfredo Ribeiro (diretor do Belenenses), Luís Ribeiro (seccionista), Armando Mendes (técnico responsável), acompanhado da esposa, e o barqueiro, que já tinha assistido a vários treinos meus e prometia aplicar os seus conhecimentos das correntes locais para que eu tivesse sucesso na minha tentativa, até porque estava em causa o seu contrato.

A tentativa teria um prémio especial, caso eu concluísse a travessia, melhorasse o tempo de Batista Perreira e batesse o recorde do Estreito, que pertencia ao espanhol Rodolfo Eguia, com três horas e 20 minutos, feitos em 22 de julho de 1959. Eram precisamente 9h38 quando me lancei ao mar, na ponta marroquina da Ilha de Palomas (Tânger). Iniciando a minha tentativa, a média era de 76 braçadas por minuto, era o normal que estava a fazer nos treinos e demonstrava que estava com enorme força para vencer a distância que separava a Europa de África.

Sempre avançando no mesmo ritmo, comecei logo a impressionar todos os meus acompanhantes e até os guias se entusiasmaram. Após uma hora, o ritmo da braçada baixou para 72, o que não deixava de ser bom.

Quando cheguei precisamente a meio, tive que fazer uma pequena paragem porque ia a passar um petroleiro. Foi quando perguntei ao barqueiro que me acompanhava (assim como ao meu treinador Armando Mendes) qual era a minha posição, visto ser um homem sabedor, pois já tinha acompanhado até Marrocos 47 outros nadadores de várias nações, entre os quais Batista Pereira. O barqueiro disse-me que eu estava com uma boa média, fazendo lembrar o Rodolfo Eguia, recordista da prova, e que era bastante superior à do outro português (Batista Pereira). Oitenta e cinco minutos de prova foi o tempo que eu atingi a meio do Estreito, com 35 minutos menos que o do recorde.

Duas horas percorridas, Ceuta estava cada vez mais perto. Comecei a sentir as águas mais quentes e a presença dos golfinhos. Alimentei-me de frutas cristalizadas e um pouco de vinho do porto. Os cardumes de golfinhos eram cada vez mais, enquanto que da vedeta soavam tiros de espingarda para os afastar.

Eram 12h42m15s quando pus os pés em terra, na Rocha do Saibas, Costa Norte de África, gastando 3h4m15s na travessia

Foi uma loucura. A emoção era tanta que alguns dos meus acompanhantes ficaram com fortes dores no peito e outros lançaram-se à água. Bebeu-se a bordo por Portugal, pela união de todos os Belenenses e pelo meu êxito. No regresso, fomos bastante aplaudidos e saudados pelos espanhóis que estavam em Aljezur à nossa espera.

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