As nossas vidas são atos banais

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“As nossas vidas são feitas de memórias e de exaltações e de atos banais e de factos relevantes, como se gosta da vida gosta-se do passado”

Por proposta do Chlorus constituir uma rubrica de memórias, é com muito gosto que pretendo partilhar e contar algumas peripécias e episódios passados na modalidade no decorrer dos meus 75 anos ligados à modalidade.

Então escolhi para esta minha primeira história à pessoa que mais contribuiu para a minha carreira como nadador de fundo e que teve consequências de treinador olímpico. Essa chama-se Joaquim Batista Pereira, o homem que deixou a natação pura para onde desde dos anos 30 e 40 pulverizou os recordes nacionais, desde os 200 aos 1500 metros livres.

Foi figura da natação portuguesa de 1938 a 1979, foi quando deixou a natação de piscina com o aparecimento do algesino Fernando Madeira.

Foi aqui e pela força e paixão do grande nadador, porque era grande na sua alma e no espírito na sua estrutura que o levaram a maiores façanhas da natação longa que culminaram com vários triunfos históricos da natação de longa distância portuguesa: a travessia do canal da mancha em 21 de agosto de 1954, na travessia do estreito de Gibraltar em 25 de outubro de 1953 e 22 de setembro de 1956 e com o recorde da Europa de longa distância estabelecido na zona do Ribatejo, na distância de 206 km em 28.43h.

Para que estes sucessos acontecem, foi necessário uma fase de preparação muito elevada com diversos treinos longos, entre eles aquele que foi o meu último como lebre, entre tantos que participei a pedido da comissão técnica do nadador alhandrense.

Foi em 22 de junho de 1959 convidado para participar na travessia do Tejo entre o Terreiro do Paço e Cascais na tentativa de melhorar o seu recorde.

Cais da Coluna, madrugada, quatro da manhã, Lisboa calma, um grupo de pessoas que vinham dos festejos do bairro popular de Alfama e compareceram ao amanhecer para ver o acontecimento. E é na verdade um acontecimento desportivo. Batista Pereira, o mais categorizado nadador português a participar em uma das provas de preparação para a sua campanha internacional, cujo calendário de atividades é intenso.

Três embarcações, uma a motor dos socorros náufragos, a cargo dos Bombeiros Voluntários de Alhandra com o mestre Alfredo Tinoco, seu treinador, e ainda duas pequenas lanchas a remos. Na altura não havia motores de poupa para acompanharem de perto os nadadores.

Ultimando se os preparativos para a largada, Batista Pereira come a sua última refeição constituída por frutas. Pereira da Silva, o homem do cronómetro e o controlador da prova, o homem que sempre acreditou no alhandrense. Colocou gordura no seu corpo para defesa do frio.

Numa outra embarcação tomaram lugar as pessoas da comissão técnica e eu, que na altura já tinha esta paixão. Comigo representava o Belenenses, onde o Pereira da Silva é um entusiasta pela natação do clube azul, cuja minha tarefa era entrar dentro de água quando o Batista Pereira entrava em redução de ritmo.

Às 4.43, Batista Pereira lançou-se à água na altura em que a maré estava na praia mar, cuja temperatura era propícia para uma boa prova. Sem grandes pressas, sem forçar muito o ritmo, passou no cais do Sodré já com 10 minutos, aqui já com o início da vazante.

Acompanhávamos todos os pormenores da vista do Tejo. À esquerda apareceu-nos, na sua imponência, o Cristo rei. Lindas paisagens que as margens do Tejo proporcionam cheias de encantos que embelezam a linha de Cascais.

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Belém, torre de orgulhosos feitos históricos, Algés, Paço de Arcos, Santo Amaro de Oeiras. Aqui, Batista Pereira apertou um pouco a braçada, o cronómetro de Pereira Silva apertava o tempo. Foi aqui que me preparei para a minha participação na prova fundo. Lancei-me no desenvolvimento da minha juventude a mordiscar-me o meu temperamento, tomei a dianteira para servir de lebre.

Foi aqui que o Batista amuou, pelo motivo da impetuosidade com o meu espírito que contrasta com os nervos do alhandrense.

Depois de nadar duas horas fui mandado recolher, só voltando ao mar quando as muralhas de Cascais estavam mesmo à vista. Após este pequeno acidente, Batista Pereira sentia que a maré estava na baixa-mar, alimentou-se. Estávamos a entrar no Estoril com Cascais à vista, com o tempo a pensar em mais um feito. Aqui já com muitas embarcações a acompanhar e o Batista a corresponder.

Aguardavam a chegada várias pessoas, incluindo José Travassos, futebolista do Sporting, e era muito saudado por muita gente do Belenenses.

Os tempos registados em Belém: 5.47, Algés 5.57, Paço de Arcos 6.40, Carcavelos 7.23, Parede 7.47, Estoril 9.30, chegada a Cascais 10.13, o que perfaz 5.28h de prova, melhorando o seu recorde que era de 5.40h.

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No final, o Pereira da Silva, que me incentivou para que um dia eu fizesse sozinho esta prova, disse-me “é possível ao Batista Pereira, com boas condições do tempo, fazer esta travessia facilmente em menos de meia hora”.

Foi neste pormenor indicativo que eu pensei nas palavras do Pereira da Silva que um dia me proporcionei a voltar a fazer esta prova sozinho.

Batista Pereira aproveitou-se na forma física ideal e melhorou o seu recorde.

A minha próxima história é sobre como superei este tempo.

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