Margarida Guimarães Cunha: “O cancro mostrou-me que sou mais forte do que achava”

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Margarida Guimarães Cunha tem 29 anos e uma forte ligação à natação sincronizada. Foi atleta, mas aos 19 os estudos falaram mais alto e levaram-na a abandonar as piscinas. A paixão pela modalidade prevaleceu e colocou-a no caminho da arbitragem, função que desempenha até hoje, mesmo depois de lhe ter sido diagnosticado um linfoma em 2015.

Tudo começou por volta dos cinco anos quando a mãe a inscreveu em aulas de natação na piscina de Felgueiras, de onde é natural. A passagem para a sincronizada deu-se pela mão de Luísa Leite, treinadora do Foca, de quem era vizinha, e lá permaneceu até aos 19 anos, altura em que ingressou no ensino superior.

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“Na altura entrei na faculdade, fui estudar para Coimbra e tornou-se complicado conciliar os treinos com os estudos. Só treinava ao sábado de manhã e pontualmente às sextas, um treino de três horas por semana era muito pouco. Sentia a minha resistência e a minha execução a entrarem em declínio e optei por abandonar”, revela, em entrevista ao Chlorus.

Apesar da exigência do curso de Ciências Farmacêuticas, Margarida quis continuar ligada à modalidade pela qual se apaixonou. Quando deixou de competir inscreveu-se nos cursos de arbitragem e aproveitou o facto de haver poucos árbitros de natação sincronizada para “passar para o outro lado”.

Afirma “nunca ter sido uma atleta brilhante” e que aquilo que lhe permite ser uma boa árbitra foi a experiência que adquiriu enquanto nadadora, um período repleto de histórias para contar.

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“Lembro-me de ser miúda, de estar a iniciar a competição e de estarmos todas de rastos durante um campeonato nacional no Jamor. Achávamos que tínhamos perdido o campeonato nacional para o CN Amadora, mas depois houve uns erros nas contas da arbitragem e de repente éramos campeãs nacionais. Acho que foi a primeira vez que senti aquela felicidade pura porque foi uma coisa inesperada e um momento muito bom. Tenho muitas memórias de todas as competições, principalmente das internacionais”.

No final de 2015, a vida da estudante de Ciências Farmacêuticas foi virada do avesso. Entrou no hospital com muita tosse e expetoração com sangue e ficou internada. “Fui internada com uma pneumonia e depois de muitos exames e de um período de dez dias de internamento nos Hospitais da Universidade de Coimbra, detetaram-me um linfoma no mediastino, entre o coração e o pulmão. O facto de estar perto do pulmão levou a que surgisse a pneumonia.”

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Apesar da tosse e da expetoração, Margarida Guimarães Cunha não tinha qualquer outro sintoma. Na altura, admite ter perdido algum peso, mas sempre pensou que fosse devido ao desporto. “Sempre pratiquei desporto e como andava a praticar mais frequentemente, associei o emagrecimento a esse facto”, explica.

Entre 2 dezembro de 2015, dia em que foi diagnosticada, e o início dos tratamentos, pouco tempo passou. O processo foi “longo e complicado”, mas o número de sessões de quimioterapia foi menor do que o previsto, contribuindo para minimizar os efeitos secundários.

“Ao fim de duas sessões de quimioterapia, fizeram-me exames, determinaram alguns parâmetros que estavam por concluir e tive a sorte de me aliviarem um bocadinho o tratamento. Passei de sessões de três dias seguidos para uma sessão de quinze em quinze dias e isso fez toda a diferença porque me causou muito menos efeitos secundários do que aqueles que inicialmente tinha. Fiz seis sessões e aos poucos a minha vida voltou ao normal. Também fiz radioterapia, que foi um processo mais simples que o que havia feito anteriormente. No total estive meio ano em tratamento, foi duro, foi complicado, mas já passou.”

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Foram várias as limitações provocadas pelo linfoma no dia a dia de Margarida. Habituada a praticar desporto, a ex-atleta cansava-se com facilidade, tinha a imunidade comprometida e estava impedida de frequentar ginásios, quer pela quantidade de pessoas, quer devido ao ar condicionado.

Apesar da gravidade da situação, Margarida manteve o pensamento positivo e encarou o cancro de frente, prova disso foi o nome dado ao blogue que criou. “Linfoma Feito ao Bife” foi a maneira que a atual árbitra encontrou para comunicar com as pessoas, mas também para desabafar.

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“Recebia muitas mensagens, muitos telefonemas e ficava muito cansada, sentia que não tinha um minuto de descanso, então pensei: vou criar um blogue, assim toda a gente consegue acompanhar-me sem haver uma necessidade de estar sempre em contacto direto comigo. Havia também pessoas com quem eu não tinha uma ligação muito forte, mas que ficavam sensibilizadas com a situação e queriam estar a par, por isso foi uma boa forma de chegar até elas. Todos os dias me dedicava um bocadinho ao blogue e era algo que me fazia bem”, confidencia ao Chlorus.

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Em julho de 2016, Margarida concluiu os tratamentos. No blogue, diz ter sido o fim de um período de “240 dias difíceis e de angústia” que culminaram num final feliz.

“À partida, o problema está ultrapassado, mas num processo oncológico só depois de cinco anos se pode dizer que estou definitivamente curada. Neste momento, tenho consultas de seguimento, vou fazendo exames e está tudo controlado, embora tenha ficado com uma pequena sequela: os exames indicam que há ali uma pequena massa, mas é uma questão de ir vigiando se mudou de sítio”, refere, explicando que o linfoma é um cancro liquido e que por isso pode voltar a “reativar”.

Quase um ano depois, realça que a sua saúde “está impecável, a imunidade está reestabelecida e que a vida voltou ao que era”. Prova disso, foi o concretizar recente de uma promessa antiga: ir a Fátima a pé. “A ida a Fátima não teve propriamente a ver com a minha doença, era algo que sempre quis fazer e este ano pareceu-me particularmente especial e a oportunidade certa para concretizar esta promessa, a minha mãe e a minha avó são muito religiosas e eu sempre tive muito contacto com a igreja. Fiz duas etapas, de Coimbra a Fátima a pé e gostei da experiência, mas é duro”, frisa.

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“Foram 40 quilómetros por dia com algumas lesões musculares pelo meio, fruto da perda de massa muscular provocada pelos tratamentos, situação que tem vindo a ser gradualmente reduzida com a retoma da prática desportiva. Quando vivia em Coimbra ia ao ginásio várias vezes por semana e fazia natação, já que apesar de não fazer sincronizada em piscinas públicas, umas boas braçadas sabem sempre bem”, afirma.

Atualmente vive no Porto, onde estagia numa farmácia e não tem tanto tempo quanto gostaria para praticar desporto como em 2015. Daí para cá, passou por um processo de aprendizagem e hoje encara a vida de outra forma.

“A Margarida de 2015 era um bocadinho insegura, frágil e tenho noção que o cancro mostrou-me que sou uma pessoa mais forte do que achava. Hoje em dia passei a ter especial atenção aos outros, passei a ter uma perspetiva diferente da vida, relativizo algumas coisas que em 2015 teriam outra importância e sem dúvida que sou uma pessoa melhor”, conclui.

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