Sexualidade no desporto (parte 4)

  •  
  •  
  •  
  •   
  •  

Esta é o quarto e último dos artigos que temos vindo a publicar, referentes a comunicação que a Dra. Maria Fernanda Mendes levou a efeito nas lll jornadas técnicas realizadas em Coimbra.

Consequências negativas da abstinência sexual

Os aspetos psicológicos não são de menos importância que os físicos. É do conhecimento de todos que o estado de tensão prejudica performances. A ansiedade provoca taquipneia, taquicardia, aumento do consumo de O,2 e, consequentemente, gasto de energia.

Durante os estágios, ao se isolar o atleta do seu meio familiar e social, não se consegue, contudo, impedir a existência de tensão, porque a imagem da competição está sempre presente. Se o que se pretende com o isolamento e as proibições, principalmente o jejum sexual e obstrução de atletas mais agressivos, não pode ser que a sua finalidade seja atingida. Mas resta saber se o atleta tem mais performances.

Pensamos que para se obter um recorde é necessária uma infraestrutura muscular como mais uma sequência harmoniosa de movimentos. Aquele que fica em 3.º lugar poderá levantar uma pedra mais pesada do que o vencedor, mas, como se vê, a força pode não ser suficiente. Para uma execução perfeita, é necessária uma diminuição do impulso ansioso, a agressividade é incompatível com o equilíbrio do sistema nervoso neuro-vegetativo, mediador da ansiedade.

Não me compete vir dar sugestões de como se deve organizar estágios, mas demonstrar que os jejuns sexuais, quer de coito quer de masturbação, podem ser prejudiciais aos atletas. Não sei, por exemplo, quando um nadador treina na véspera e no próprio dia da competição, o tempo de aquecimento de um jogador de futebol. Sei, no entanto, que o mecanismo do esforço é idêntico ao do ato sexual e ao da ansiedade. Simplesmente, a energia gasta através da ansiedade não se pode medir, ao passo que sabemos serem necessários apenas 3 a 4 minutos para o descanso do ato sexual padrão.

Não podemos deixar de referir ainda que o que está culturalmente ligado à ideia de “borga” é quando o indivíduo perde uma noite num ambiente fechado perfeitamente poluído, tipo discoteca, noite ou bar, ingerindo bebidas alcoólicas e, por fim, parte de uma relação sexual, sentindo-se cansado e mal disposto no dias a seguir. No mínimo é ridículo querer atribuir esse esgotamento à energia despendida na relação sexual.

Quando falamos de vida sexual para o atleta, falamos de um sexo inserido num contexto psico-efectivo sem violação, tanto do desejo como do ritmo do comportamento sexual. Porque, se há pessoas que têm desejo para um ritmo diário de relações sexuais ou mais, existem aquelas que se sentem perfeitamente bem com um coito semanal ou menos. Assim como existem mulheres cujo padrão de resposta da função sexual é do tipo multi-orgástico, há aquelas que não; e se são de sistemas de homens que têm um período refratário nítido, outras quase não o sentem.

Num estudo efetuado no Japão, de casos de “morte por amor” ou morte em coito, constatou-se que dos 34 achados, somente 7 foram em relações sexuais com acesposalegitima.

Falamos em sexo como uma função tão normal como todas as outras dos diversos aparelhos do corpo humano. Ao atleta é ensinar que para obter um bom desenvolvimento da força muscular, é uma técnica perfeita a fim de que possa adquirir uma ótima performance, necessite do treino e mais do que isso, é importante que leve uma vida higiénica, comer corretamente, dormir bem, etc… – ou seja, pede se lhe que o seu corpo e psico funcionem o mais harmoniosamente possível. Porque não entra aqui a função sexual.

Não nos podemos esquecer que o atleta é um ser humano com direito a uma vida psico-efetiva-sexual tão boa quanto as outras pessoas. Nesse sentido, temos de entrar com um fator importante para esse indivíduo que é a companheira ou companheiro. O atleta pode sentir-se motivado para observar o jejum sexual, fortemente encorajado por treinadores, massagistas e diretores para quem o sexo é o inimigo n.º 1 no atleta. O mesmo não acontece com os companheiros, deste facto poderão advir vários tipos de sentimentos cobertos para o casal, podendo levar problemas diários sexuais sérias. Essas dificuldades vividas pelo casal por certo que vão atuar no atleta de maneira negativa, tornando-se ansioso e a culpabilização diminuindo assim as suas capacidades.

A melhor maneira de resolver o problema é integrar ao máximo os companheiros no campo desportivo. É por exemplo associar a ida deles numas deslocações importantes.

Em síntese, podemos concluir dizendo que sexualidade não pode mais ser encarada como um meio de reprodução, é um meio de dar e receber prazer e um símbolo de normalidade e adaptação social.

Comentários